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Life of a Wonderer

Life of a Wonderer

2018 e as pessoas continuam a falar do nosso corpo

Fonte: Huffington Post

 

Já andava a pensar há quanto tempo é que vos disse, no meu post sobre mim, que sou uma pessoa introspectiva e que gosto de reflectir sobre as coisas, mas nunca vos tinha mostrado esse meu lado. Hoje, finalmente, venho partilhar convosco algumas coisas que têm passado pela minha cabeça nos últimos tempos. Não é a primeira vez, e com certeza não será a última, mas é algo que eu sinto que precisa de ser falado. Hoje venho partilhar com vocês alguns dos meus pensamentos em relação ao facto de continuar a haver pessoas que comentam o corpo ou a alimentação dos outros como se tivessem alguma coisa a ver com isso. Vai ser uma mistura de reflexão com 'rant' porque é algo que me chateia um bocadinho.

 

Falo sobretudo da minha experiência pessoal, pois sou uma pessoa magra e abaixo do peso ideal para a minha idade e não é porque eu queira; é sim porque tenho um metabolismo extremamente rápido e por isso não engordo facilmente. A questão é: eu sou magrinha.

 

E não sei por quantas vezes nestes meus anos todos de vida eu já ouvi pessoas dizerem: "tens que comer um hamburger", "pareces um palito", "qualquer dia desapareces", "precisas de comer mais", "és um esqueleto", entre outras coisas que tais, coisas estas que ao longo de quase toda a minha vida tive que ouvir e calar, mas que, a partir de certo ponto, comecei a ficar cansada de ouvir.

 

Desde então eu não consigo meter na cabeça como é que as pessoas se acham no direito de comentar o corpo ou a alimentação das outras, como se elas tivessem alguma coisa a ver com isso. Como se dizer "tens que comer um hamburger" e "qualquer dia desapareces" ajudasse em alguma coisa ou tivesse algum propósito (por favor, se tiver, digam-me qual é - ainda não consegui perceber bem). Atenção, tal como disse, estou a falar da minha experiência, mas isto serve também para as pessoas com excesso de peso que ouvem coisas do género, eu simplesmente não posso falar por elas.

 

O que me chateia não é o facto de me fazer sentir mal, porque felizmente aprendi a transformar essa insegurança induzida pelos outros em intolerância para com os outros, porque este é um típico caso de "diz mais deles do que de mim". O que me chateia é o facto de ainda sentir que preciso de me justificar a estas pessoas, explicar-lhes que não engordo facilmente, que tenho o metabolismo rápido, ou tentar defender-me quando me dizem que como pouco (esta é uma das minhas preferidas, porque as pessoas julgam mesmo que conhecem o quanto eu como sem ver, de facto, o quanto eu como a todas as refeições, todos os dias). Acho que acaba por ser normal quando as pessoas falam como se realmente tivessem algum voto na matéria.

 

Por muito tempo eu tive que ouvir este tipo de comentários e aceitá-los de boca calada. Aliás, infelizmente é o que a maioria das pessoas faz. Eventualmente, comecei a perceber que eu não tinha problema nenhum só porque os outros falavam como se tivesse - pelo contrário, o problema estava neles. No facto de se acharem no direito de comentar o meu corpo e a minha alimentação como se de facto tivessem algo a ver com isso. A partir daí eu comecei a ser cada vez menos tolerante com isso. Não se trata de ser sensível, trata-se sim de fazer as pessoas verem que não estão a ser correctas. Eu acredito que a maioria das pessoas fique genuinamente magoada com comentários do tipo, por isso porque raio o fazem sem pensarem sequer nas consequências? Estamos em 2018! Ainda oiço pessoas julgarem outras por serem gordas, e tristemente admito que faço parte do problema, não por ajudar à festa, mas sim por ficar calada. Cheguei a um ponto em que deixei de acreditar que se pode mudar a mentalidade de quem acha engraçado gozar com alguém ou fazer juízos de valor ocos e sem propósito só por se ser gordo ou magro. Eu própria fui gozada no 3º ciclo por ser magra. Quando fazem comentários do género "pareces um palito" só estão a ajudar a que o problema se mantenha.

 

Não estamos mais numa época em que seja legítimo achar-se que estas palavras não têm um efeito sobre as pessoas. Acredito que tenha, e em muitas delas. E acredito que numa percentagem dessas pessoas, o efeito se eleve a tal nível que começa a ter consequências graves. Por favor, parem por um segundo. Estamos numa sociedade cada vez mais informada, e mesmo assim, ainda falta tanto. Aquilo que antes eram "piadas" e "na brincadeira" nunca o foram realmente. E cada vez mais se percebe que deixaram de o ser, por isso colaborem.

 

Enfim, isto provavelmente ficou confuso e, como acontece sempre, não disse nem metade do que queria, porque isto é algo que dava pano para mangas e que realmente me chateia. Chega a entristecer-me pensar que ainda temos que lidar com pessoas assim - entende-se mais ou menos em pessoas mais velhas, mas quando vemos pessoas mais jovens com menos consciência daquilo que estão a fazer é muito triste.

 

O que acham deste assunto? Já ouviram coisas deste género? Podem partilhar como se sentem em relação ao assunto, se quiserem!

 

P.S: Sei que existem casos graves, como distúrbios alimentares, excesso de peso que possa causar problemas graves de saúde, etc. Não quero que pensem que estou a desvalorizá-los, essas pessoas devem ser ajudadas por uma questão de saúde física e mental, e por isso o assunto deve ser falado, sem dúvida. No entanto, não é com comentários deste género que se consegue ajuda para essas pessoas, por isso o meu ponto de vista mantém-se. Só não queria terminar o post fazendo parecer que não se deve falar em caso nenhum, mas neste caso o problema é mais o que se diz e a forma como se diz do que o facto de se dizer.

 

Imagem: Huffington Post

Sobre mim


25 anos, mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. Apaixonada por Lisboa e por gatos. Introspectiva por natureza e com muitos pensamentos para partilhar!

📖 A ler: The Night Circus (Erin Morgenstern) // Harry Potter and the Order of the Phoenix (J.K. Rowling) // A New Earth: Awakening to Your Life's Purpose (Eckhart Tolle)

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